Brasil
Carta encontrada na França, escrita por Victor Renault ao irmão Léon, em 1877, narrando seu contado com a região e os habitantes das Gerais.
Barbacena, 17 de outubro de 1877.
Meu bom irmão Léon.
No dia 6 do corrente mês, eu te escrevi uma longa carta em reposta à tua carta do dia 1º de setembro e eu inclui um retrato meu tirado em agosto de 1876 lamentando muito não ter podido te enviar ainda os retratos da minha família, por falta de um fotógrafo que passe por aqui. Eu faço questão tanto mais de te enviar estes retratos a fim de destruir uma ilusão que tu te fazes supondo-os do tipo dos índios, ou de uma mistura da raça africana, não é nada disso. São pessoas muito bonitas que descendem da raça portuguesa, com olhos negros, cabelos da cor da asa de corvo, e formas bem desenvolvidas. Enfim é preciso acreditar que eu poderei ainda te enviar todos estes retratos. Apressado em responder à tua boa carta, eu não pude entrar nos detalhes concernentes à minha existência, desde minha saída da França. Eu vou então resumir esta existência. Chegado ao Rio, sem nenhum recurso, foi-me necessário encontrar os meios de poder me transportar para o interior da província de Minas, à procura de um emprego como engenheiro numa mina de ouro, e da qual me haviam falado em Paris, na embaixada do Brasil. Eis-me então ingressando a uma espécie de caravana, caminhando ora a pé, ora a cavalo, através de caminhos impraticáveis, e levando perto de 3 meses para percorrer uma distância de 150 léguas. Chegado ao meu destino, tive a decepção de encontrar a mina, vendida a uma companhia inglesa, que tem por regra invariável só admitir ingleses como empregados. Foi-me necessário então procurar em outro lugar, e é assim que perco dois anos, durante os quais sofri todo tipo de privações. Lembro-me ainda de um dia em que tendo viajado o dia inteiro e sem ter comido desde a véspera, eu achei ao anoitecer uns biscoitos pendurados num barbante, à beira de meu caminho. A água me veio à boca, eu tinha fome, mas foi necessário seguir mais adiante, eu não tinha um tostão comigo, e eu continuei meu caminho com minha companheira, a fome, que eu conhecia há muito tempo. Enfim após ter perambulado durante 2 anos, e vendido pouco a pouco a roupa que eu havia trazido da França, encontrei-me no fim dos meus recursos, e cada vez mais com uma forte inflamação no fígado. Eu achei uma casa caridosa que me tratou, e em troca, durante meu tratamento, eu ensinava a ler e a escrever, à criança da casa, o que me valeu um transporte gratuito até Sabará, com algumas camisas que me havia dado, a dona da casa. Enfim chegado a Sabará, cidade bastante importante, eu comecei a dar aulas de francês, inglês, química, física, matemática e alemão, que eu não tinha esquecido e que eu tinha aperfeiçoado com a prática de lidar com o alemão. Um dia em que eu tinha resolvido um problema algébrico que me haviam proposto, este problema caiu nas mãos de um inglês, diretor da mina de ouro de Morrovelho. Este senhor veio me encontrar e me perguntou se tinha sido eu que havia resolvido aquele problema, e com minha afirmação, ( ele falava perfeitamente o francês ) ele me diz: então o senhor deve, perfeitamente, jogar xadrez. Um pouco, lhe digo. E bem, me diz ele, o senhor faz meu trabalho, eu lhe dou a guarda dos livros, pois é preciso que eu substitua meu contador que está muito doente, e parte para a Inglaterra, e será apenas daqui a seis meses que virá um outro, durante este tempo, o senhor servirá interinamente ( pois nós não admitimos estrangeiros na nossa firma ) e o senhor comerá à minha mesa, residirá na minha casa, e o senhor ganhará oito francos por dia como contador, mas com uma condição: é que o senhor jogará comigo uma partida de xadrez todos os dias. Pusemo-nos de acordo, eu fazia a partida de xadrez, eu ensinava a ler e a escrever às crianças, o que me valia todo o tipo de atenções. Mas o momento fatal soa, meu sucessor chega, meu Eldorado desapareceu. É necessário partir, mas não sem a benção desta honrável família, deste excelente homem pelo o qual eu rezo diariamente, pois ele não é mais deste mundo. Eu levava uma economia de 400 ( mil reis ?, 1200 francos ) e munido desta soma, eu me aventurei a me apresentar ao presidente da província, para achar um emprego como engenheiro. ( Eu tinha podido comprar umas roupas para me apresentar. ) Era em 1836.
Propuseram-me atravessar um terreno frequentado por selvagens antropófagos que diziam negros, e que tinham recusado com raiva todas as tentativas feitas para penetrar nas suas florestas. Mas o Presidente me enduzia ao mesmo tempo a não empreender esta missão por ser muito perigosa e na qual ele estava certo que eu sucumberia. Tanto melhor, eu me dizia e eu parti acompanhado de soldados dos quais eu era o chefe. Antes de chegar à entrada da floresta, era necessário percorrer uma distância de 200 léguas, onde se acha a cidade de Minas Novas; chegando lá, preveniram-me de novos terrores sobre a ferocidade dos selvagens, e sobre o perigo eminente que eu corro. Tanto melhor, eu repetia, e eu penetro nas florestas. Logo sou assaltado pelos Nak-Nanukes ( habitantes das montanhas ) e pertencentes a grande família dos Botocudos, selvagens nômades, antropófagos e muito ferozes. Eu tinha um intérprete que lhes faz compreender que não lhes quero nenhum mal, e que eu lhes trazia presentes. As flechas não continuavam menos a voar, mas sem nos fazer mal, nós nos pusemos ao abrigo, e enfim após terem esgotado suas munições de flecha e não vendo represália da minha parte, eles se apresentam com muita desconfiança. Mas enfim, nós nos colocamos de acordo, e eles me reconhecem com seu ( Krentigne Tépaquijié ) ( grande chefe ). Eles são negros, é verdade, quando eles estão em guerra ou na caça, porque eles se pintam o corpo com a fruta do Jenipapo ( Genipa Brasiliensis ), uma rubiácea, o que lhes impede de ficar muito a vista no meio dos tufos de árvore.
Eles estão inteiramente nus, homens e mulheres, e não se dignavam mesmo a esconder a nudez com fizeram Adão e Eva.

- Mulher Botocudo
Mas é preciso partir e eu estou apenas no começo da minha viagem. É preciso dizer adeus aos meus bons Nak-Nanuks com os quais nos tornamos muito bons amigos e isso sem que eu tenha a lamentar o menor mau tratamento, a menor arbitrariedade. Eles me acompanham durante uns trinta dias, caçando e pescando com suas flechas, mas um belo dia ao acordar, eu não vejo mais nenhum. Eles se tinham retirado durante a noite, e eu compreendi que eu estava no território dos ferozes Téperok ( braços ruins ) o mais cruel inimigo deles, pois os Botocudos são divididos em tribos inimigas umas das outras. Elas tem seus territórios que elas percorrem em toda a sua periferia subindo os cursos das águas, durante o tempo da estação chuvosa, e descendo seus cursos durante o tempo da seca, seguindo assim as migrações da caça e do peixe. Mas percorrendo a periferia do seu território, acontece que duas tribos se encontram em seus limites, e é então que se segue uma guerra encarniçada, e de extermínio, que se vê nos Botocudos. Os Tipérokas me tinham, e, nos vigiando, nós fomos assaltados por uma grande quantidade de flechas que vinham do outro lado do rio. Nós nos achávamos acuados numa rocha e cercados por 400 Botocudos, durante 23 dias nós tivemos de sofrer seus ataques, não tendo mais víveres e tendo por única alimentação raízes de árvores para roer.
Eu era o primeiro homem que eles viam, por isso quantas exclamações vendo nossas vestimentas, nossas armas, nossos víveres, que eles não conheciam, e sobretudo o sal que os obrigava a raspar a língua, e a gritar ( muguang – Krok ) água de fogo. De resto eu observei que o uso do sal que os selvagens não conhecem é muito prejudicial aos dentes, pois estes selvagens tem os dentes excelentes e não lhes falta nenhum, mesmo com a idade de 130 anos, como eu tive a ocasião de verificar ao cabo de 3 meses de uso do sal, atingidos de dores de dente, enquanto que aqueles que não faziam uso de sal, não sofriam nada. Eu aprendi a língua deles que não sendo muito complicada, não é muito menos difícil, e eu organizei um vocabulário, que foi publicado nas obras do Conde de Castelnau. A pronúncia é muito aspirada e muito cadenciada, e eu assinalei as palavras aspiradas por um meio do ( J ) alemão, mas ainda mais aspirada. A língua deles é muito composta de onomatopaicos, e eles inventam palavras, todas as vezes que eles vêem um objeto que eles não conhecem. As mulheres sobretudo excelentes para a invenção destas palavras novas. Assim vendo um boi pela primeira vez, as mulheres começam a gritar ( po – Kekri, po – Kekri ) ( pé fendido ). A galinha foi denominada Ereknack por causa do seu grito, e assim por diante. Eu era o Krentogne, Tépakijie, Kétôme, Krak ( grande chefe com os olhos brilhantes ou de ferro ), pois para eles tudo o que brilha, ou é duro, ou é pontudo, eles o chamam por ( Krak ). Um dia em que eu enxugava meus óculos que eu tinha tirado, ouvi todas as mulheres que rindo gritavam ( tchenp – tchenp ) pendurado, pendurado, e então, eu fui o Krentogne, Tépakiju, Kétôme, Krak, tchenp. ( O grande chefe com olhos de ferro pendurados ). Por abreviação e também por familiaridade as mulheres mais tarde só me chamavam de tchenp – tchenp. Como eu disse no começo estes selvagens não tem nenhum meio de esconder sua nudez, se deitam na terra nua, todos misturados, homens mulheres e crianças como um rebanho de javalis. Eles acreditam num Deus supremo, e à noite após a caça, eles se entregam ao prazer da dança para a qual eles se formam em círculo passando os braços pela cintura, homens e mulheres, e então hei-los que começam a pular e a cantar em cadência, todos fazendo uma roda, nada é mais cômico de ver também pular em cadência, tudo que é suscetível de oscilações, tanto no homem quanto na mulher. Algumas destas mulheres se achavam sobre uma influência e eu te asseguro que não era nada menos que apetitoso. Pouah! era da parte, mas em sentido contrário. Obviamente chocante! Mas onde diabo é que Chateaubriand escreveu seus Natchez e seu episódio de Atala e Chactes I. Certamente que não é no meio deles. Estes poetas!
Apesar de que estas damas estejam inteiramente nuas, elas acharam apesar disso um meio de dar curso à sua vaidade, que ao que parece, é inerente a humanidade. Nainne Jereja ( J alemão ) mudava de roupa todos os dias, ora ela se apresentava com magníficos calções vermelhos que ela simulava com a cor do orucu ( bina orellaria ) ora eram os braços, o nariz e todas as outras saliências, o que lhe dava às vezes um ar diabólico. Quando nos salões dourados, eu vejo nobres damas, e belos senhores, se entregarem ao prazer de um galope, eu imagino a dança dos selvagens, e sua cadência, e eu tenho vontade de rir.
Foi somente no final de 23 dias que tendo esgotado todas as suas flechas, das quais nós nos protegíamos facilmente, sobretudo quando se tem um olho um pouco americano, pois elas não vem bastante rápido que não se pudesse evitá-las, se se acha numa distância de poder vê-las chegar. Vendo minha indulgência que não consentia que meus soldados atirassem um só tiro de fuzil, e esgotados de armas, cedem às minhas palavras de paz, estes ferozes selvagens se decidiram a atravessar o rio e se entender comigo. O chefe deles Takans se apresenta a mim e me batendo no peito e me pegando pelos rins me fez sofrer um galope infernal na praia do rio. Eu resisti felizmente a esta prova e me batendo novamente no peito, exclamou: mangattône ourouje ( J alemão ) ( muito valente ) e então a paz estava feita, mas era tarde demais. Treze dos meus soldados não tinham podido resistir a tantas privações e morreram uns após os outros, sem socorro e sem recursos. Eu domestiquei tanto quanto possível estes infelizes que não tinham outro cuidado a não ser defender seu território, assim morrerei com a consciência tranquila de não ter jamais atirado contra eles e de só ter respondido a todos os seus ataques com atos de amizade e de indulgência. Entretanto uma noite em que eu me encostei a uma árvore, o fuzil entre as pernas, eu cedia ao sono eu senti-me puxado pelos pés. É meu pequeno Alonzo, Nak Nanuk que seus pais me haviam dado, que, como selvagem que era tinha pressentido meus novos amigos que vinham sobre mim com o arco estendido. Eu acordo com meu fuzil, e lhes falo com energia. Logo eles abaixam seus arcos dizendo que eles queriam ver se eu dormia. São homens covardes e traiçoeiros. Eu levei mais tarde meu Alonzo para Barbacena onde eu o fiz batizar. Mas um dia em que fiz uma viagem ao Rio e apesar que ele estava com minha mulher que ele amava muito aliás, esta pobre criança de 12 anos não pode resistir ao desgosto de não me ver e morreu. Isto prova que estas pessoas são suscetíveis de bons sentimentos, trata-se apenas de saber conquista-los, o que não se fez. Trataram-lhes como bestas pintadas e os tornaram inimigos vingativos. Enfim eu tinha achado um rio, ou antes um rio desconhecido por todo o mundo. Eu tinha a intenção de levantar o curso e de prestar um serviço ao país. Eu tomei então a deliberação de cavar com o resto dos soldados que eu tinha e meus dois ordenanças troncos das árvores, destinados a me transportar sobre o rio. Após muitos esforços, eu consegui concluir meu trabalho, quando eu fui assaltado por um novo bando de selvagens, inimigos dos Téperocas, com os quais eu já tinha boas relações. Dai novas investidas da parte deles, um cerco de três dias. Enfim eu consegui me fazer senão amigos, ao menos entrar em relações com eles, e me lancei nas minhas perogas com a graça de Deus. Mas ninguém fará jamais uma idéia do que seja um rio desconhecido.
No momento em que eu acreditava que a navegação caminhava convenientemente, com meus instrumentos entre as pernas, e meu lápis na mão, eu fazia tanto mal quanto mal o levantamento dos terrenos que eu percorria, crac, eis uma catarata, e por consequência uma queda e derrubada de minhas perogas. Eis-nos todos a nadar salvando o que nós pudemos e reduzidos durante os 16 dias que durou a navegação até o mar a viver de frutos da sapucaia ( lecythis grandiflora ) que boiavam no rio. Enfim eis-me chegando a embocadura deste rio, do qual conservei o nome indígena ( Mokury ) ( mo – va ) Kury ( lavar ). S. José de Porto Alegre ( ? ) é uma aldeia de índios situada na embocadura deste rio e embora já constituídos em sociedades, eles não podiam acreditar diziam eles que eu tivesse este lago, pois eles tomavam o rio por um lago, não o tendo subido por medo dos Botocudos dos quais eles são inimigos. É preciso compreender que há duas raças distintas entre os selvagens do Brasil ao menos na província de Minas, são primeiramente aqueles que se chama os Índios, que são doces, cultivadores e nada maus, eles se dividem em muitas tribos dos quais as principais são os Puris, os Malaches etc……Os outros são os botocudos, raça feroz, nômade e antropófagos que se dividem em um grande número de tribos. São os Nak-Nanuks, os Tépérokas. A língua das duas raças é completamente diferente assim como seus costumes, seus hábitos, pois eles já cultivam a mandioca, com a qual eles fazem redes para se deitar, enquanto que os Botocudos se deitam na terra nua. Eu chegara ao termo da minha viagem após ter domesticado perto de 6000 botocudos, viagem da qual ninguém compreenderá nem as dificuldades, nem os encantos e que somente poderiam compreender aqueles que se arriscam no meio das florestas inextricáveis do Brasil que eu percorri de oeste a leste numa distância perto de 200 léguas, abrindo um caminho por meio de uma faca de caça, e me guiando com a bússola, que não deixei nunca. À beira do rio, eu me servia do meu teodolito para fixar alguns pontos astronômicos e eram os únicos objetos que nos era permitido levar além de nossas armas, pois sem caminhos, com exceção daqueles que nós abríamos com a faca de caça, não havia meio de levar nada, nem mesmo roupas e é assim que eu fiz toda esta viagem com uma única camisa de tecido grosso e uma única calça de algodão feita no pais, e eu lavava eu mesmo alternativamente uma ou outra destas roupas. Mas o que me foi mais penoso e do qual eu me lembro ainda com horror, era ser obrigado a fazer toda a viagem de pés descalços no meio dos espinhos que se cravavam neles todos os dias. E era necessário que eu assim o fizesse pois no meio dos bosques, e sem conhecer os acidentes do terreno, nós caíamos ora num braço de rio que era necessário atravessar a nado, ou sobre um pântano lodoso que era necessário atravessar afundados até os joelhos, e assim por diante, e então era literalmente impossível ter sapatos para trocar todos os dias, quando nós não tínhamos a faculdade de poder levar víveres, limitava-nos a comer o que nós achávamos no nosso caminho, caças, frutos, raízes, e bem frequentemente nada de nada. Quando penso nesta viagem é preciso que eu tivesse uma forte constituição para resistir a isso.
Enfim eis-me aqui chegando ao término de minha viagem, mas é preciso voltar e dar conta da minha incumbência ao Presidente da província de Minas. Mas, por qual lado tomar? Voltar nos meus passos? Impossível, nós estamos na estação das chuvas e eu não poderia nunca subir o rio Mukury, cheio de margem à margem. Então decidi-me a costear sempre com os pés descalços, e com o resto do meu mundo, as praias do mar até o encontrar a embocadura do rio ( Jequitinhonha ) sofrendo os ataques de um novo mal que eu ainda não conhecia: a sede, a horrível sede! Eu subo o Jequitinhonha ( ? ) costeando um caminho aberto pelos Botocudos Krekmas, e no final de 18 meses de uma viagem cheia de perigos, de privações de todos os gêneros, eu chequei a Ouro Preto ( ? ) capital da província, onde o presidente ficou muito contente com o meu trabalho, e me fez elogios oficiais que conservo para meus filhos. Mas eu não soube aproveitar do meu trabalho, pela má fé de um Judeu. Este Judeu, ao qual eu tinha confiado um plano de navegação e de colonização que ele se julgava capaz de obter do governo enquanto que eu faria sempre por ordem do presidente da província, uma nova exploração à beira do rio Paracatu e do grande e magnífico rio de São Francisco.
No final de 15 meses, quando da minha volta da viagem que fiz para grande contentamento do governo, meu judeu patife tinha vendido a um particular meus planos, projetos, orçamento e eu tive o desprazer de ver um outro usufruir os frutos de meu trabalho organizando uma companhia com meus projetos. Tu vês que decididamente pertenço à raça pobre, pois era bem a ocasião de fazer fortuna. Eis-nos no fim de 1838, contente de meu trabalho, o governo me encarrega de confeccionar uma estrada que partindo de ( Ouro Preto )? deve se dirigir para ( Rio Garnier ) ?. Eu trabalho até 1840, mas a doença que eu tinha contraído no Mukury me obrigou a vir me tratar em Barbacena sempre conservando o meu lugar, e enfim, no dia 25 de novembro de 1841 casei-me com minha querida Antônia, uma das filhas do médico que me tinha tratado e eu continuei meu trabalho até junho 1842 quando um movimento político eclodiu, e do qual fui vítima. Eu fui demitido, porque meu sogro e todos os parentes e amigos da família de minha mulher estavam comprometidos e apesar de que eu não fosse bastante ingênuo para me envolver em coisas que não me diziam respeito. Então foi necessário mudar de profissão e tornei-me negociante de lingerie, panos, etc … e eu não ganhava pouco dinheiro. Mas, em 1846 o partido político voltou e por consequência aqueles que tinham contribuído indiretamente para minha demissão fizeram questão de me reintegrar no meu posto, não mais como engenheiro adjunto, mas como engenheiro em chefe. Eu me vi por assim dizer forçado a aceitar, e eu vendi bem a contra gosto minha loja. Mas eu não pude continuar muito tempo neste emprego que exigia que eu estivesse quase sempre a cavalo, e era quando eu era enviado e a cavalo que as câimbras de um lumbago me tomavam e me obrigavam a ficar deitado na beira da estrada durante muitas horas, foi necessário deixar um emprego que eu não podia mais ocupar. Eu comprei escravos, terras, gados, e eis-me fazendeiro com um administrador que me dá a oportunidade de estudar com prazer no meio da solidão das florestas. Aplico-me ao estudo da medicina homeopática, faço curas que me dão reputação, e graças a esses resultados, eu me apresento no Rio e solicito do governo a concessão de passar por um exame livre, eu triunfo e eu recebo meu diploma. Eu volto as minhas terras, e começo a trabalhar como médico e ganhei muito dinheiro pelas viagens, sendo chamado a ver doentes até 30 léguas de distância, e ganhando além dos medicamentos que eu aplicava, e as doenças que eu tratava na minha estrada, 20 francos por légua. Mas este maldito lumbago cujos acenos aconteciam todas as vezes que eu montava à cavalo, me impediu de continuar estas viagens, eu vendi meus escravos, minhas terras e meus gados, e eu volto a Barbacena para ter mais recursos, para me tratar; e montei um colégio de instrução secundária, e onde eu era o principal professor. Isto ia bem, mas os espasmos que me tomaram a garganta e a laringe e que me propagam na traquéia ao ponto de me fazer temer uma asfixia iminente me impediram de lecionar, foi ainda necessário deixar este modo de viver. Os médicos que consultei e houve uma dúzia tanto no Rio quanto aqui, tanto brasileiros quanto estrangeiros, nenhum é de acordo com o outro. Uns me dizem que é a pneumo-gástrica que é afetada, um outro que é o grande simpático, um outro que é uma congestão e enfim outros que todos estes sintomas provem do esfriamento que eu tive nas costas, deitando na terra molhada durante minha viagem a Mocury, e que são mantidos por uma febre palustre que eu contrai e que ainda não tinha acabado até hoje. Entretanto me tem ainda e me vejo quando menos espero e sem causa aparente e sem que possa se explicar, ameaçado de asfixia, tudo isso faz com que eu tema sair em viagem, e às vezes de casa onde minha querida Antônia tem sempre medicamentos para vir me ajudar, e eu me acho um pouco inutilizado não podendo me dedicar a um trabalho ativo. No meu lazer, eu compus em português algumas obras para a instrução secundária, e que tiveram bastante aceitação, tendo sido aceito para a instrução pública e eu estou compondo uma outra que eu temo não terminar, porque a energia me falta e tenho muita dores ao escrever. Há dias em que eu tremo, de tal maneira que não posso quase assinar meu nome, e para te escrever hoje uma tão longa carta, eu retomei-a várias vezes, escrevendo sem óculos para poder escrever mais fino, porque então não tremo tanto. Eu temo que tu tenhas alguma dificuldade para me ler, mas talvez que com um pouco de paciência tu conseguirás. Eu tinha economias que eu tinha colocado com um indivíduo que me parecia sólido, mas no lugar de 150000 francos, eu não recebi com muito trabalho mais que 40000 francos, o que constitui hoje toda minha fortuna. Tu vês então que eu sou bem da raça pobre. Eu tenho como especialidade curar a loucura por meio de plantas do pais que conheço. Eu tenho 16 casos de curas que me tem dado muita reputação, e eu tenho agora em casa um louco que eu trato e que sendo muito rico me paga bem e serve para sustentar minha família visto que eu não tenho outro meio de prover suas necessidades. Eu estudo atualmente a botânica do pais. Eu tenho uma belíssima coleção de orquídeas que me valem as visitas de todos os viajantes ilustres e príncipes da família imperial aos quais eu dediquei uma espécie nova descoberta por mim. ( l`Odontaglonum amygdienne Sano boburgo )! Minha mulher me deu 14 filhos dos quais 8 estão vivos e entre os quais duas moças e três rapazes são casados e que até o momento me deram 17 netos. Eu tenho ainda 3 filhos para casar e já noivos e tenho dor de não poder prover as necessidades desta numerosa família. Ainda se eu tivesse saúde, se eu pudesse viajar, isto não seria nada. Quanto a fazer medicina na cidade isto não rende nada. São todos compadres, amigos aos quais não posso pedir nada. Se tu tens a ocasião de ler a obra do capitão Burton, viajante inglês muito famoso, tu verás no artigo de Barbacena o que ele diz de mim. Tu me fizeste tremer na sua boa carta quando tu me dizias que tu tinhas vontade de partir comigo! Deus preserve meu maior inimigo de sair de seu pais, de perder de vista seu campanário, pois não é somente a terrível nostalgia que nos apunhala, é a comparação que vos torna infeliz, e se tem a ocasião de faze-la diariamente. Infeliz fora de seu pais, o seria na nossa pátria, e não poderia mais nada em lugar nenhum, e é isso que me acontece. É preciso entretanto que eu termine esta carta já longa e que me deu muita dor por causa da dificuldade que eu tenho de escrever. Mas eu fiz questão de me compensar por um tão longo silêncio e da falta de relações impedidas por uma fatalidade que eu não quero procurar explicar, pois eu também eu te teria escrito se eu tivesse tido um endereço qualquer da tua parte. Eu te imploro para continuar a me escrever e a me dar notícias de toda a família pois meus filhos saltaram de alegria quando eles viram a carta do meu sobrinho Henri, e em seguida a tua, pois os fizeram compreender que embora de boa família, minha família me tinha desprezado, o que aliás explicava a falta de cartas da França. Envie-me todos os retratos da família, eu faço muita questão de te-los, e abrace por mim todos os membros da família que eu amo sem ter a felicidade de conhece-los. Minha mulher e meus filhos se unem a mim nesta mesma finalidade e receba para ti meu querido e bom irmão, um terno beijo de amizade. Eu teria querido publicar todas as minhas viagens e as descobertas que eu fiz, mas eu não tenho mais energia e esta carta já me cansou muito. Talvez meus filhos acharão algumas notas minhas, das quais eles poderão aproveitar. Eu vivo então mais ou menos o dia a dia, mas eu vivo e eu tentarei a cura de um outro louco quando eu tiver curado aquele que eu tenho atualmente em casa.
Ainda uma vez, eu abraço minhas irmãs e minhas cunhadas, e sou teu irmão que te ama
Victor Renault
Tradução coordenada por João Carlos Renault em DEZ/1996.
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Botocudo
RELATÓRIO DA EXPEDIÇÃO DOS RIOS MUCURY E TODOS OS SANTOS, FEITO POR ORDEM DO Ex.mo GOVERNO DE MINAS GERAES PELO ENGENHEIRO PEDRO VICTOR RENAULT, TENDENTE A PROCURAR UM PONTO PARA DEGREDO.
Ex.mo Snr. Antonio da Costa Pinto. – Mandado pelo Ex.mo Governo de Minas Geraes a explorar as mattas comprehendidas pelos rios Mucury e Todos os Santos, onde o mesmo Governo tenciona estabelecer uma colonia de degredados e vagabundos, sahi aos 22 de janeiro de 1836 da Imperial cidade de Ouro Preto dirigindo-me a Sabará, onde tinha os meus instrumentos; esperei neste lugar o Snr. Amedée Lavaissière, por quem devia eu ser coadjuvado n`essa commissão.
Chegado este, sahimos de Sabará, indo por Minas Novas e passando pela Villa de Diamantina, e sem querer entrar em superfluas minudencias sobre uma estrada de ha muito conhecida, chegámos á Villa de Minas Novas aos 18 de Março do mesmo anno, um mez depois da nossa sahida de Sabará.
Remetti no mesmo dia ao Presidente da Camara da dita Villa o officio do Ex.mo Governo, em que mandava que a mesma Camara coadjuvasse com todos os meios ao seu alcance a uma empreza de que devia resultar tão innumeros resultados a esta Comarca e á Provincia, em geral; mas direi a V. Ex.ia com muita magua, é tão lastimavel a posição dos Minanovenses e portanto de sua Camara, que não existia no cofre dinheiro sufficiente para pagar alguns – proprios – que a Comarca tinha precisão de mandar.
A villa de Minas Novas, situada a 17.º 37` e 3“ de latitude e a 40º 20` de longitude, foi outr`ora a metropole do commercio d`esta Provincia com a da Bahia, para onde transportava annualmente um sem numero de fardos de algodão, exportação esta que não só bastava para as necessidades publicas da Provincia, que infelizmente como as outras do Imperio, não usava senão de fabricas ultramarinas, como permittia tambem a muitas pessoas ajuntar consideraveis fortunas, que ainda existem em algumas mãos.
Porém o systema arruinado de agricultura, usado em umas terras tão favorecidas sobre diversos pontos, tem cançado as mesmas de tal sorte que hoje não produzem senão carrascos, debaixo dos quaes raros animaes, que por acaso resistiram a tão desastrosa peste, procuram algum alimento, que com difficuldade encontram; e o que é mais ainda a perda, por muitos annos, em Minas Novas, das sementes que produzem o algodão.
Algumas minas exploradas, tambem, no mesmo tempo, accrescentariam ainda a felicidade dessa Comarca, porém, trabalhadas a talho aberto, entupiram-se e ficou de menos aos Minanovenses a esperança de verem-se levantar o seu paiz, por minas de ouro, que na verdade são todas de quartzo, o que augmenta ainda a inconstancia que geralmente caracterisa esse genero de riqueza.
Encontrei, finalmente, pedras preciosas a saber: crysolithas, aguas marinhas ( do numero das quaes foi a tão afamada pedra de 16 libras que foi offerecida á Sua Magestade Dom João VI pelo seu descobridor ) que serviam para augmentar um futuro não remoto á felicidade de Minas Novas.
Mas os botocudos Jiporocas, que com muito custo se haviam afugentado, e não se vendo sem pouca magua despojados de suas terras, fizeram um ultimo esforço e continuaram independentes a percorrer as suas vastissimas possessões.
A sua presença e as suas atrocidades horrorisam de tal maneira a alguns emprehendedores que essas riquezas poderiam procurar, que nenhum d`elles se atreve a ir sacrificar a sua existencia.
Presentemente os Minanovenses vivem sobre si mesmos e do que conseguiram ajunctar em tempos mais felizes.
Foi este o estado de pobreza em que achei Minas Novas, não lhe ficando para remedio á sua decadencia senão uma communicação mais immediata com o littoral do Oceano e ainda a cultura de fertilissimas mattas; portanto ocioso seria pintar a V.Ex.ia o enthusiasmo com que os Minanovenses me receberam, fazendo mil votos afim de que eu desenvolvesse n`essa empreza toda a coragem, constancia e patriotismo que me poderia sugerir a minha patria adoptiva.
Apezar da penuria que já expuz a V.Ex.ia, muitos fazendeiros, vendo que por meio d`essa empreza podiam se livrar dos indios, fizeram uma subscripção que subiu a 117$000, quantia esta destinada á abertura de uma estrada, diminuindo assim a despeza do governo.
Dirigi-me tambem ao Tenente-Coronel Francisco Innocencio de Miranda Ribeiro, encarregado pelo Ex.mo Governo, não só para dirigir a Commissão com os seus conselhos, mas tambem auxilia-la com dinheiro, tendo-se mandado uma lettra de 1:000$000 que para esse fim foi destinada.
Esse digno e honrado militar prestou-se com todo o patriotismo e desvelo de que é dotado e de que já tem dado exhuberantes provas, tendo, o mesmo Snr., dado todas as providencias necessarias afim de que nada faltasse durante aquella viagem.
Estavamos promptos a principiar a nossa deligencia, não esperando senão a chegada dos soldados das divisões que por 2 vezes foram expedidos do Quartel Geral, precedidas de dez praças cada uma.
Tendo eu recebido, conforme determinação do Ex.mo Governo, a quantia de 200$000 destinada á compra de brindes para os Botocudos, encarreguei o Cidadão José Antonio Coelho de mos comprar.
Chegados os soldados das divisões, sahimos, de Minas Novas a 25 de Abril, com grande receio dos habitantes de que pagassemos o dizimo ás mattas do Rio Mucury.
Seguindo sempre a direcção léste indo para a Fazenda da Conceição, da qual, é possuidor o Snr. Antonio José Coelho, fazendeiro rico, de cento e tantos captivos, que sendo morador das encostas das mattas, tem soffrido immensos prejuizos causados pelos Botocudos – Nak-nanuks, que de vez em quando lhe fazem visitas sempre hostis e perigosas, matando-lhe o gado e destroçando as suas plantações.
É na esperança de se vêr livre de semelhantes visinhos que esse Fazendeiro fez os maiores sacrificios, e ultimamente prometteu fazer ( pelo Ex.mo Governo ) uma estrada transitavel para os animaes – cargueiros – até o Rio Mucury.
Chegados n`esta Fazenda da Conceição aos 28 do mesmo mez de Abril, esperavamos contemplar d`esde então aquellas tão antigas e magestosas florestas; foi-nos, porém, necessario ainda pôr um termo á nossa impaciencia, porque tendo o Cidadão Antonio José Coelho aberto um espaço de caminho, seguindo os antigos vestigios de Bento Lourenço, que ahi penetrou no anno de 1816, que foi impedida pela apparição de fumaça que se presumia ser dos Botocudos Jiporocas ( cujo nome só basta para horrorisar não somente aos habitantes civilizados, como tambem aos seus proprios visinhos – os Nak-nanuks ) voltou e tomou outra direcção, abrindo uma estrada tendente a procurar as cabeceiras do mesmo rio na distancia de 12 leguas.
Depois de feita esta, pudemos emfim preencher os nossos desejos fazendo a nossa entrada por esse caminho aos 9 de Maio, acompanhados: pelo Capitão Antonio Gomes Leal, seu filho, um interprete e soldados das divisões, seguindo a direcção de léste-sudéste, sem ter tido nada de extraordinario a notar n`esta travessia, a não ser mattas ordinarias pertencentes ao Rio Setuval.
Chegados a esse ponto, onde acabava a estrada, fizemos um quartel, distante ½ legua das cabeceiras do Mucury, afim de podermos verificar si os arredores preenchiam as vistas do Governo, e por isso subi a uma alta pedra de formação granitica, podendo alcançar até uma distancia assaz consideravel para me convencer de que não podia ser este o logar adoptado; resolvemos, então, a acompanhar o curso do rio Mucury até encontrar a travessia da antiga estrada de Bento Lourenço.
N`este ponto achei reunidos para mais de 300 Botocudos ( entre homens, mulheres e creanças ), da nação Nak-nanuks que, sendo mansos muitos delles tinham sido chamados pelo seu capitão – que hoje se entrega ao trabalho e vive muito amigo dos brazileiros, achando-se ao serviço na casa de Antonio Gomes Leal; e outros, – bravos – ainda, acompanhavam estes ultimos afim de partilharem dos brindes que eu fazia aos Botocudos mansos.
Os Nak-nanuks, cuja etymologia na sua linguagem quer dizer – habitantes da serra, ( por ser com effeito verdade, visto como habitam as serranias que devidem as aguas dos rios Mucury e Gequitinhonha ) fazem parte da grande e numerosa nação dos Botocudos, que chegados áquellas paragens ha 50 annos, mais ou menos, das partes ( deve se suppôr do Norte ) em numero immenso ( apezar de todos os esforços que fiz para saber dos mais velhos de onde vieram e que marcha haviam seguido, nunca me souberam dizer ) parece-me terem vindo da Asia, pelo estreito de Bhering quando o mar ainda não havia creado a passagem descoberta pelo celebre navegante que lhe traz o nome.
Atacavam, em diversos pontos e debaixo de differentes nomes, os antigos habitantes das mattas regadas pelos rios Doce, São Matheus, Mucury e Gequitinhonha; obrigaram, depois de ataques sanguinolentos, a nação dos indios, tambem dividida em grupos de differentes nomes, a se entregar á civilisação, resistindo, apenas, a este ataque geral os indios puris-, que ficaram nas suas possessões.
A sua linguagem, muito aspirada, tem uma semelhança extraordinaria com a chineza, como se poderá facilmente reconhecer por um vocabulario que tirei; o seu semblante é bem parecido com os dos chinezes, seus cabellos pretos, lisos e duros; têm pouca ou mesmo nenhuma barba ( supponho que a arrancam ).
Elles julgam homens corajoso aquelles que têm muita barba e crescida, por isso só os seus capitães deixam crescer a barba ( no queixo ) para tornar patente o seu grande animo.
São de estatura alta, constituição forte e genio extraordinariamente vingativo e independente.
Este caracter moral da maneira por que são creados, pois tendo eu visto um filho que por ter sido castigado por seu pae ( sem duvida por tel-o merecido ) batera em seu proprio pae auxiliado por sua mãe, que lhe ensinou por esta conducta que nunca se devia deixar impune qualquer offensa.
As idéas religiosas são poucas ou nenhumas; apenas elles suppoêm a existencia de um – ente supremo – que chamam em sua linguagem – Krenhouh Jissa Kijú – ( Chefe Grande ), mas não lhe rendem culto absolutamente algum; pelo contrario quando troveja, suppondo ( pelo seu caracter já descripto ) que não se pode aplacar a ira senão pelo medo, lançam flechas ao ar, com muitos gritos e dizendo: – Krenhouh Jissa Kijú jak jemes ( que o chefe grande está bravo ) e que precisam amansa-lo ou o atemorisar.
São nomades, isto é, nunca residem no mesmo logar, e arrancham aonde com mais facilidade podem encontrar caça; são antropophagos e gostam principalmente de negros, que chamam – Ankorá – ( macaco do chão ), porém nunca deixam de passar a carne ao calor do fogo; comem algumas raizes, e entre ellas a – caratinga -; tambem comem cipós, que contêm fecula assaz abudante e agradavel.
Quanto ao mais ignoram inteiramente o uso de plantas medicinais e somente os vi usar um – remedio – que consiste em encher de cynza ou terra qualquer ferida que tenham, por mais profunda que seja.
São muito achacados a dôr de olhos.
Vivem em constantes combates com os seus visinhos; e as suas flechas são hervadas com o – ucurú -; vivem até muita adiantada idade e um d`elles me pareceu ter para cima de cento e cincoenta annos!.
Abrimos uma picada, por entre brejos e pantanos, em uma distancia de dez legoas, onde encontramos vestigios do caminho seguido por Bento Lourenço; o nosso mantimento ia carregado nas costas dos soldados, porém tendo nós encontrado outros Botocudos ( da mesma tribu dos Naknanuks ) mais bravos ainda e aos quaes nos foi necessario distribuir viveres para grangear a sua amizade, fomos obrigados a nos estabelecer nas margens do rio Mucury e ahi fazer um – quartel -, pois o mantimento que tinhamos calculado poder durar dous mezes, já estava quasi acabado.
A picada que haviamos seguido era intransitavel para os animais cargueiros e distava doze leguas da Fazenda mais proxima.
Resolvemos dar promptos remedios aos nossos males, abrindo, do ponto em que nos achavamos, uma estrada que fosse encontrar a que Antonio José Coelho havia abandonado por causa dos Jiporokas.
Portanto aos soldados que dirigiamos, demos para esse fim todo mantimento que nos ficava, afim de que abriviassem um trabalho tão necessario; mas fomos illudidos, não indo nós mesmos assistir o trabalho ( para que não augmentasse o gasto do pouco mantimento que havia, e assaz necessario aos trabalhadores ): assim, sem mantimento algum, em um lugar distante 22 leguas da primeira Fazenda, cercados de Botocudos ( que muito embora tivessem relações comnosco, não deixavam de mostrar caracter hostil bastantemente accentuado ), vivendo, como elles, de cipós e cocos de brejauba, sem apparecer caça alguma, afugentada ou destruida por tão extraordinario numero de pessôas, entregues a uma cruel fome, que conta, no meio de suas victimas, um velho soldado das divisões: luctando todos os dias com o desejo de desempenhar a importante commissão de que fomos incumbidos e pensando na deshonra que nos acompanharia por uma vergonhosa retirada, e ainda os sentimentos de humanidade, que me suggeria ao vêr os males de meus companheiros, desconfiado, ainda, de que os soldados que mandára abrir a estrada, haviam succumbido ás flechas dos Jiporokas, que já tinham feito recuar Antonio José Coelho, resolvi a me sacrificar ou soccorrer os meus companheiros; e 15 dias depois da sua partida, puz-me em marcha, acompanhado pelo capitão Antonio Gomes Leal, seu filho e mais dous soldados, tendo deixado o Snr. Amedèe Lavaissière com seis soldados, duas ordenanças e alguns botocudos mansos que ja se achavam ao nosso serviço.
Promettemos-lhe breve socorro; e no 5.º dia depois de tão penosa viagem, privados do sustento necessario, tivemos a felicidade de encontrar um dos filhos do Capitão Antonio Gomes Leal que vinham socorrer os soldados que eu havia mandado.
Pedi-lhes que fossem com brevidade prestar soccorros ao quartel de Mucury, e eu, seguindo a minha viagem, acompanhado por dous soldados, tratei de abreviar a conclusão da estrada.
No dia seguinte ao da minha chegada a Fazenda da Conceição, voltando para o quartel do Mucury, com as ferramentas necessarias e os soldados da divisão, que se achavam na referida Fazenda, abri cinco leguas de estrada, n`esta parte, em quanto que o Capitão Antonio Gomes Leal abriu em outro ponto, igual distancia até nos encontrarmos, tendo eu feito pontes em todos os ribeirões, indo chegar justamente á margem do Mucury, onde estava estabelecido o Quartel, communicando-se com a outra margem do rio por meio de uma ponte que fiz construir sobre elle.
Foi na occasião em que eu estava abrindo esta estrada que tive occasiãode fazer experiencia de uma fructa que tem toda a semelhança com a – noz moscada – da India, e que eu suppunha, por essa razão, ter identicas propriedades; e sentindo-me com uma febre bastante forte, cansado, soffrendo um inverso rigoroso, fiz d`ella bebida que me foi tão favoravel e proveitosa que fiquei immediatamente alliviado do encommodo.
Algumas d`essas fructas se acham commigo, que poderei mostrar si assim o determinar V.Ex.ia.
Tambem n`esta mesma occasião, experimentei uma canella que não é bôa como a da India, mas que cultivada será em tudo igual a ella.
As diversas quinas conhecidas no Brazil, existem ahi em abundancia, e devo principalmente notar uma de casca fina, vermelha e que compete em tudo com a do Perú, devendo-se observar que o effeito febrifugo d`aquella é devido á chinconina em quanto que o effeito desta é devido á quinina.
O sassafraz, por ser muito conhecido no Brazil o seu effeito, e existir em tamanha abundancia n`aquelles sertões, não merece senão uma simples referencia.
A congonha – encontra-se tambem, a cada passo, de differentes qualidades e todas bôas.
Até ao ponto em que estava feita a estrada, abandonada por Antonio José Coelho, as terras ainda são vertentes do Jequitinhonha, porém deste ponto para deante começam as vertentes do Mucury, e mudam-se completamente as mattas, que desde logo tomam outro aspecto.
Á vista destas mattas tão vastas, gigantescas, bellas e ricas regadas por tão abudantes rios; á vista desses magestosos arvoredos, cujas frondosas copas impediam a penetração do Sol até as humildes plantas que rastejavam no chão; á vista d`esses enormes cipós que se estendiam de uma a outra arvore e assim pareciam liga-las para resistirem á impetuosidade dos ventos; á vista d`esses outros mais finos que humildemente se serviram dos troncos das arvores como amparo á sua ephemera duração; á vista de tudo isso, a minha imaginação me representou o emblema da sociedade, prescrevendo-me as regras que a devem reger.
Emquanto estava fazendo a ponte, no Mucury, para passar os animaes cargueiros, o Sr. Amedée Lavaissiére, continuava a estrada que se dirigia a Todos-os-Santos, e ahi chegamos todos aos 2 de agosto, ( terça-feira ) seis dias depois de sahir do rio Mucury, onde havia deixado a ordenança Fagundes com alguns outros soldados das divisões que deviam me aguardar n`esse ponto.
A estrada que vae até Todos-os-Santos ( chamado na linguagem dos Botocudos Tenta-hó ) dista 20 leguas do rio Mucury.
Esse rio já foi visitado pelo Coronel Bento Lourenço e algumas bandeiras que alli tinhão chegado e voltaram impedidos pelos Botucudos que lhes mataram tres ou quatro companheiros.
Esse logar tinha adquirido fama das mais extraordinarias riquezas possiveis, a saber: diamantes, esmeraldas, aguas marinhas, e crysolithas, que disputavam ao afamado rio a honra e o previlegio de serem arrastadas, no seo leito, pelas suas aguas correntes, que se iam junctar ás do Mucury de que é tributario.
Mas estudando a constituição geologica do logar e todos os indicios que me pudessem denunciar a presença de tão appreciaveis mineraes tive o desengano dessas supostas riquezas, e reconheci que as aguas d`aquelles rios não carregam senão os despojos das ricas florestas que regam.
Em quanto eu me occupava n`estas difficeis investigações que foram sem proveito. o sr. Amedée Lavaissiére foi visitar a serra chamada das Ametistas por suppo-la composta de pedras do mesmo nome e que se achava a 2 leguas de distancia do Quartel de Todos-os-Santos, não podendo eu, pelas amostras que me trouxe o mesmo sr., provar a supposta existencia de ametista n`aquella formação de accumuladas materias mineraes.
Aos 7 de Agosto chegou o soldado Innocencio, sendo portador de um officio de V.Ex.ia communicando-me os desejos que tinha de ver explorado o rio Mucury até á sua foz, ou embocadura no Oceano Atlantico.
Depois de sua volta da serra das Ametistas, dispoz-se o sr. Amedée ir á Fazenda da Conceição providenciar alguma cousa necessaria para a viagem, ficando a meu cargo toda a triangulação do logar destinado ao degredo e exploração ( por terra ) do rio Todos-os-Santos.
Portanto aos 8 do mesmo mez de Agosto, o sr. Amedée partiu com destino á fazenda da Conceição, e logo no dia seguinte comecei a exploração do rio Todos-os-Santos, que corre com enorme differença de nivel, atravessando grandes rochedos, que produzem n`elle immensas cachoeiras; as aguas que correm em seu leito são em pequena quantidade, tornando a sua navegação custosa.
Na distancia de doze leguas até a sua barra, correm vinte quatro corregos dos quaes sómente cinco d`elles conservam a agua no tempo da secca; não obstante esta falta no tempo da secca, podem industriosos colonos se utilizar de suas ricas mattas.
Durante essas digressões não encontrei os Jiporocas apezar dos esforços que fiz para chama-los á cathequização, si bem que tivesse encontrado frescos vestigios que testemuhavam a sua incontestavel presença.
Todas essas explorações estavam sendo feitas com a bussola na mão tomando todas as voltas do caminho pelas diversas direcções que tomava a agulha magnetica, e regulando com o relogio a distancia percorrida.
Este methodo, que não é de exactidão mathematica, não merece o nome de topographico, mas sim o de reconhecimento de terreno; outro meio é porém, impraticavel até hoje n`essas matas tão sombrias.
Os dous pontos necessarios do mappa são exactamente conhecidos, sendo cada um delles determinado pela sua Latitude e Longitude.
Emquanto eu explorava o rio Todos-os-Santos os soldados das divisões estavam empenhados na construcção das canoas que nos deviam conduzir até o Oceano, e logo depois do meu regresso fui medir o logar destinado ao dicto degredo, e que se acha distante 4 leguas do rio Todos-os-Santos, nas serranias que dividem as aguas do Mucury e Todos-os-Santos, tendo subido ao cume da serra afim de poder fazer a medição.
A natureza já havia destinado este logar para semelhante empresa.
Grande numero de serranias quasi inaccessiveis ao homem cerca este reducto em uma distancia de duas legoas sobre meia de largura; dous ribeirões que nunca seccam, e mattas fertilissimas o cobrem, não existindo senão duas entradas e uma bocaina por onde passa o ribeirão.
Assim com certas obras que poderão ficar em 25:000$000, ahi poderão ser guardados e seguros os criminosos que forem remettidos, sem jamais poderem conservar esperança de se evadirem; e se tal acontecesse teriam uma matta de 40 legoas a atravessar até chegar á primeira Fazenda, e não lhes deixando armas de qualidade alguma como tambem mantimento á sua disposição, parece muito custoso poderem se evadir.
A colonia ahi estabellecida, estará limitada de uma parte pelo rio Mucury, da outra pelo rio Todos-os-Santos, fazendo um triangulo isoceles de 20 leguas de um lado, 12 de base e 10 de altura, appresentando por tanto uma area de 120 leguas.
Os criminosos principaes ficariam circumscriptos a uma area fechada trabalhando a terra durante o dia, e sendo recolhidos a noite.
E em logar dessa ociosidade que se entregam os criminosos recolhidos nas cadeias publicas, ver-se-hiam obrigados a trabalhar, e talvez que lhes voltasse o amôr ao trabalho e por essa obrigada applicação ( esquecendo os vicios acoimados em seus corações ) tornassem a ser uteis á sociedade e a si mesmos.
Para esse fim deveria ser formado um quartel de divisão composto de 80 praças, repartidas em diversos destacamentos, conforme exigirem as circuntancias.
Acho aqui occasião para falar no gonum que alguns chamam azogue vegetal ou tambem Anna Pinta, e que se acha em grande abundancia n`essas paragens.
O seu effeito em muitas enfermidades é assaz conhecido pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
Merece maior attenção ( por não ser conhecida ) uma fructa cujo oleo extrahido tem a propriedade de combater as mais pertinazes empigens.
Algumas dessas fructas acham-se em meu poder, e farei a este respeito o que determinar V.Exc.ia.
Encontrei tambem outra fructa que sendo cultivada poderá ficar uma das melhores que temos e que os Botocudos chamam de Kapamja.
A ipecacuanha ( poaia ) impede pela sua abundancia o progresso de muitas outras plantas que nascem nesses logares.
Havendo finalmente terminado a medição do degredo voltei para o quartel de Todos-os-Santos onde achei tudo prompto para a viagem, esperando apenas para me embarcar pela presença do sr. Amedée; e receando ao mesmo tempo embarcar só com os soldados, e descer o rio ainda intransitavel, por não ser ainda navegado, esperei 6 dias, vivendo no meio da matta, unicamente com dez soldados, quatro botocudos mansos, um – lingua – e o meu camarada.
A estação pluviosa que já estava adeantada, e que ia tornar impossivel a navageção do Mucury; o grande empenho e desejo que eu tinha de levar a effeito a empresa começada, resolveram-me a embarcar aos 13 de Septembro com 7 soldados, 4 Botocudos, um – língua – e o camarada tendo enviado os outros para se ajuntarem aos que se achavam no quartel do Mucury, onde de ante mão tinha dado providencias para que no meu regresso encontrasse os mantimentos necessarios.
A este respeito officiei a V.Ex.ia aos 10 de Septembro, relatando igualmente o que havia até então occorrido.
Esperei neste logar o sr. Amedée, e tinham já decorridos 36 dias sem delle ter noticia alguma.
A ordenança Lourenço achando-se doente não me poude acompanhar e voltou para a Fazenda da Conceição.
Embarcando-me finalmente aos 13 de Septembro de 1836, encontrei trez dias depois ( 16 ) a barra do rio Todos os Santos no Mucury.
O rio Mucury até encontrar o rio Preto, que desagua n`elle, na parte norte, é largo e magestoso; para baixo do rio Preto encontra-se o primeiro cordão de serranias, sobre as quaes elle faz grande numero de entaipadas e travessões, que apezar da muita correnteza não offerecem nem dificuldades, nem perigos aos navegantes, podendo asseverar a V.Ex.ia, que sómente tres vezes tivemos de conduzir as cargas na distancia de 40 a 50 passos apenas.
No 7.º dia de viagem, logo para baixo do Rio Preto, tive o primeiro encontro com os botocudos selvagens ( da nação dos Jiporocas ) em numero de 25 arcos; pouco mais ou menos 80 pessôas.
Não pressentiram elles a nossa chegada por causa das muitas precauções que tomei, ordenando sempre que não dessem tiros, nem gritassem, pois não desejava encontral-os com tão pouca gente ( da minha parte ), e tão minguados socorros; e graças a essas precauções, escapamos milagrosamente de diversos ataques a que talvez não resistissemos com facilidade.
Impedidos, pela violencia com que desciamos, de nos lançarem flechas, avisaram com gritos estrondosos, aos seus companheiros que iamos rio-ábaixo.
Mandei então parar as canôas no meio do rio, e por meio do – lingua – que comigo levava, e depois de ahi pemanecermos até á noite resolveram chegar a falla.
Reparti entre elles algumas ferramentas, que para esse fim levava, e pelo que pude colligir, elles nunca tinham conhecio pessôa alguma civilizada, não vendo nas suas possessões cousa alguma por que pudesse descobrir indicis do uso de ferramentas, como tambem lhes eram desconhecidos os mais usuaes vivees usados pelos habitantes da Provincia.
Passei a noite no meio d`elles, e já adormecendo, quando sahirão todos com as flechas mettidas nos arcos, cercando-nos e tomando a sahida das canôas.
Dei immediatamente ordem aos soldados para que tivessem promptas as armas, caso fosse necessario usar d`ellas.
Conhecedor de seus instinctos, sabendo que não nos faziam mal sinão por trahição, tinha certeza de que nada nos faziam si vissem qualquer pessôa accordada.
Suponho que o projeto d`elles, apezar de apparente amizade que nos testemunhavam, era o de nos tirar a vida, apoderando-se do que existia nas canôas.
Embarquei-me no dia seguinte bem cedo e já com a noticia de que outra tribu que achava rio-abaixo.
No 8.º dia de nossa viagem, tivemos a infelicidade de ver-se submergir a canôa que levava o mantimento, vivendo nós, até chegarmos ao Oceano, de pouca farinha, que se havia salvo, sem nos podermos utilizar da caça que apparecia para não dar a conhecer aos selvagens a nossa presença por aquellas paragens.
Todos os objectos conduzidos na canôa, tanto pertencentes ao Governo como aos soldados, perderam-se.
Tres dias depois tive um segundo ataque de outra tribu que se achava logo ábaixo da ultima cachoeira: esses nos haviam pressentido, e por isso, fazendo emboscada, já nos esperavam na entrada de um boqueirão, onde o rio muito diminuto rm largura, permittia-lhes esconderem-se atraz das pedras que ahi se achavam.
Chegados á entrada do boqueirão, que não nos permittia mais voltar ( caso entrassemos ), e já arriscados pelos vestigios que appareciam, e avistando uma fumaça na parte Norte do rio, mandei embicar a canôa na parte contraria, e ainda não tinhamos desembarcado, quando um numero consideravel de flechas lançadas de distancia muito proxima nos mostrou o eminente perigo, mas protegidos pelos troncos das arvores, aonde nos abaixavamos, mandei-lhe dirigir a palavra, convencendo-lhes de que não era nosso intento fazer-lhe mal algum e que pelo contrario lhes traziamos instrumentos mais faceis e mais violentos dos que usavam.
Nada aplacava a ira que lhes causou a nossa presença.
Cada flecha era novo trabalho para mim que já não podia conter os soldados que anhelavam responder com tiros.
Perdidos seriam para sempre, os nossos trabalhos, e para sempre fechadas essas mattas ao elemento civilisador, si dessem algum tiro, porque instigados pelo caracter moral de que já fiz mensão, principiaram uma guerrilha interminavel, como si vê ainda nos botocudos do rio Doce que quasi sempre atacam os passageiros si bem que entregues á civilização.
Vendo assim, que nem as promessas, nem outros meios faziam demover-lhes a ira, usei de uma estrategema que satisfez cabal os meos intentos.
Tendo eu sabido pela tribu que deixei atraz que existia uma rixa entre esses botocudos e os indios de beira-mar, ( chamados na sua linguagem: Makão Kugi – indio pequeno ), approveitei-me dessa noticia e disse-lhes que havendo sabido nos paizes longinquos d`essa rixa e os prejuizos que lhes causavam esses inimigos, vinha para auxilia-los.
Immediatamente longe de nos hostilizar, fazendo-nos gestos de alegria e satisfacção, pediram-me que não tardassemos em vinga-los.
Reparti entre elles o restante da ferramenta que trazia, e ficando muito satisfeitos, prometteram-me não atacar mais a pessôas que por alli passassem.
Depois de tão innumeros trabalhos, cheguei aos 29 de Septembro á barra do rio Mucury, onde desagua no Oceano Atlantico, tendo-o explorado e tomado todas as suas voltas por meio da busula e regulada a celeridade da canôa por uma ampulheta que fiz, e uma corda a qual tinha amarrado um peso para servir de ponto fixo: esta corda era dividida em metros e conforme a celeridade da canôa se desenvolvia mais ou menos durante o tempo em que vasava a sobredita ampulheta.
O rio Mucury corre para Léste-Sudéste e serve de limite natural ás provincias brazileiras do Espirito Santo e Bahia ( pelo Norte ).
A trinta leguas rio-ácima existe outro limite natural entre a Provincia de Minas ( ao Oeste ) e Bahia ( a Léste ); é uma cordilheira que corre de Norte a Sul, e na qual tem nascimento muitos rios.
D`esta cordilheira em diante o rio corre com muita mansidão, e é chamado pelos naturaes – Rio de Areia -.
A barra do Mucury é uma das melhores na costa Sul do Brazil, pois tem canaes de 8,14 ou 18 palmos d`agua ( maré baixa ), com fundo de lama e agua doce para as embarcações.
No pontal feito pelo rio e o mar existe uma pequena villa, composta de quarenta fogos habitada por pescadores, cujo aspecto e existencia é o mais miseravel possivel (chama-se villa de S. José do Porto Alegre ).
Está situada a 18º e 30` de lattidude e 41º 37` e 30“ de longitude, e habitada pelos antigos indios – Mukuinis – que vieram nestas costas procurar um refugio contra ataques dos botocudos – Jiporokas.
As margens do rio são ferteis em madeiras de lei, a saber: jacarandá, cabiuna, cinhatico, balsamo, ipê, jiquitibá, aroeira e brauna.
Não tem ramo algum de febres malignas, nem sezões, vantagem que bastaria para torna-lo preferivel aos rio Doce e Gequitinhonha, cujos habitantes são diariamente assolados por innumeras epidemias.
Além de todas essas vantagens, offerece uma navegação ( que principia da barra do rio das Americanas, que desagua nelle na parte do Norte ) menos perigosa e mais rapida.
O unico obstaculo que se offerece, pois, a pôr uma communicação por agua entre esta tão desgraçada Comarca de Minas Novas, é o numero de Bugres que infesta as margens do Mucury, obstaculo este muito facil de se solver, confiando-se a um homem de zelo, prudencia e capacidade reconhecida a cathequisação dos selvagens habitantes d`essas mattas; e estou certo de que no espaço de dous annos, contará o Governo d`esta Provincia mais este elemento de prosperidade em seu seio.
Por esta obra de philanthropia e de dever, estarão francas aos emprehendedores as riquezas existentes no rio das Americanas.
Tendo eu perdido a esperança de voltar pelo mesmo caminho ( rio ácima ) por causa de uma grande enchente, e não querendo esperar para não perder algum tempo que me não pertencia, resolvi-me a costear o mar ( por terra ), dirigindo-me para Norte, procurando a estrada que acompanha as margens do Gequitinhonha e seguindo-a até Porto Seguro, distante 40 legôas da Villa de São José de Porto Alegre.
Rompendo a picada chamada das boiadas, achei-me, no fim de 5 dias de viagem, na estrada do Gequitinhonha, até á barra do Arassuahy ( seu continente ) e chegado ao Calhão dirigi-me para a Fazenda da Conceição, onde cheguei aos 14 de Novembro depois de haver percorrido 150 legôas desde Porto Alegre até a Fazenda da Coelho, como se poderá vêr no mappa que tenho a honra de appresentar a V.Ex.ia.
Durante esta viagem gastei com 15 pessôas a quantia de 110$000.
A navegação do Gequitinhonha, que tambem tive a occasião de explorar, é a peior, posivel, e não o permitte alimentar esperança de se verem facilitados em seu seio os meios de communicação, sem contar ainda no numero das difficuldades as sezões que assolam annualmente os habitantes, que contam no meio das victimas, uma decima parte de suas povoações.
No dia seguinte ao da minha chegada na Fazenda da Conceição tratei de fazer o Relatorio que vos appresento.
Chegando á Villa de Minas Novas aos 3 de Janeiro do corrente anno, onde me occupei em finalizar as contas relativas á expedição, puz-me em marcha para essa Capital, passando pelas Villas de Diamantina e do Principe.
Chequei finalmente a esta Capital aos 21 de Fevereiro, onde tenho tratado dos ultimos retoques na prestação de contas da incumbencia que me coube.
O Governo poderá tirar da miseria e penuria a que está entregue a Comarca de Minas Novas, que por meio da navegação por mim indicada, e cujos serviços poderão ficar em 20:000$000, abrirá communicação immediata com o Oceano, podendo-se ir de Minas Novas a Porto Alegre em 13 dias ( com canôas carregadas ) e d`ahi por mar até a Bahia em 2 dias.
Deve, porém, ser preferida a navegação para o Rio de Janeiro, apezar da inconstancia dos ventos que sopram de Léste Nordeste, podendo-se fazer esta viagem, de Porto Alegre, em 3 dias.
Entregando á V.Ex.cia este meu trabalho, reclamo, de um lado, a indulgencia por algumas faltas imprevistas, e alguns erros, que si os tive, foram dictados pelo amor e grande interesse que tomei por esta tão grande, ardua e melindrosa tarefa, e vangloriando-me si por esses limitados serviços, puder pagar o tributo do reconhecimento á tão conhecida hospitalidade desta rica e bella Provincia.
Deus guarde á V.Ex.cia.
Ao Ill.mo Ex.mo Snr. Antonio da Costa Pinto, Muito Digno Presidente d`esta Provincia.
Do encarregado da expedição, – Victor Renault.
Ouro Preto, em 2 de Abril de 1837.
Esta transcrição foi realizada em 1998 por João Carlos Renault.
“se me permite…não sou formado em nada,(no que diz respeito a estudo regular,só pude estudar até a quarta serie do primeiro grau),tenho 42 anos,nascido em Barbacena MG,mas sempre que posso leio história,sobre tudo no que diz respeito as minas gerais, e por acaso encontrei esse texto,gostaria de agradecer a oportunidade de ler e aprender mais um pouco, um grande abraço