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O incrível mundo das formigas*

setembro 22, 2009

Texto: Wesley Dáttilo

 formiga2       As formigas são insetos sociais, isto é, vivem em colônias ou ninhos, onde cada uma trabalha para todos os membros da colônia e não somente para si mesma. Uma colônia de formigas ilustra um modo perfeito de sociedade comunitária, difícil do homem copiar e que talvez nunca consiga ser igualado. São dominantes na maioria dos ecossistemas terrestres, pois estão amplamente distribuídas geograficamente, sendo encontrados desde regiões subpolares até o tropicais, entretanto são mais abundantes na região Neotropical.

Atualmente existem cerca de 12.000 espécies de formigas descritas em 11 subfamílias e aproximadamente 300 gêneros, porém, estima-se que esse número ultrapasse a casa das 19.000 espécies. Pertencentes a classe Insecta e a ordem Hymenoptera, por incrível que pareça estão reunida somente na família Formicidae. Embora ao grande número de espécies descritas, as formigas representam apenas 1,5% das espécies conhecidas de insetos, mas somam mais de 15% de toda biomassa animal das florestas tropicais.

Devido a essa alta diversidade e biomassa, as formigas desempenham papéis importantes na dinâmica de muitos ecossistemas como dispersão e predação de sementes, ciclagem de nutrientes e herbivoria. Além disso, as formigas interagem diretamente com uma série de organismos.

Os ninhos das formigas, de uma maneira geral, consistem de um sistema de passagens ou cavidades que se comunicam umas com as outras e com o exterior. Algumas espécies constroem seus ninhos no solo e plantas; outras no interior de edificações (sob azulejos, batentes de portas, pisos, vãos e frestas, entre outros) ou ainda ocupam cavidades na madeira ou troncos de árvores. As colônias variam em tamanho e podem ser formadas desde algumas dezenas até por muitos milhares de indivíduos.

O Brasil apresenta cerca de 2 mil espécies de formigas descritas, sendo que, destas, apenas 20 a 30 são consideradas pragas urbanas devido ao fato de invadirem alimentos armazenados, plantas e outros materiais domésticos.

 

Formigas Agricultoras

Há cerca de 50 milhões de anos atrás, não muito depois do desaparecimento dos dinossauros, e muito antes do homem se ter diferenciado dos chimpanzés, um grupo de humildes formigas descobriu uma forma de assegurar alimento – tornaram-se agricultoras, cultivando fungos no interior dos formigueiros para a sua alimentação. Todas estas espécies pertencem à tribo Attini, e distribuem-se fundamentalmente pelas florestas tropicais da América Central e do Sul. Nesta categoria encontram-se gêneros considerados “inferiores” ou mais primitivos e gêneros “superiores”, dos quais fazem parte os gêneros Atta (saúvas) e Acromyrmex (quenquéns), que correspondem às conhecidas “formigas cortadoras”, extremamente especializadas.

Na ausência de enzimas que possibilitam a degradação da matéria vegetal e de insetos mortos, estas formigas obtêm os nutrientes de que necessitam através dos fungos. Em contrapartida, eles ganham um local no solo onde se podem desenvolver protegidos pelas formigas de predadores e parasitas, e conseguem obter mais material da área circundante do que se estivesse por sua conta, material esse que já vem preparado pelas enzimas produzidas pelos insetos. Os fungos utilizam esta biomassa vegetal cortada pelas formigas (Figura 1) para crescerem e acumulam tantos nutrientes que as extremidades das suas hifas incham com açúcares e proteínas, que depois servem de alimento para a colônia toda.

 

Ciclo de vida das formigas

Cada colônia é constituída por três formas distintas: rainhas, machos e operárias. As rainhas são maiores que os demais indivíduos da colônia e são aladas; em algumas espécies podem viver vários anos. Os machos também são alados e consideravelmente menores que as rainhas. Tem vida curta e morrem após o acasalamento. As operárias são fêmeas estéreis, não possuem asas e constituem a grande maioria de indivíduos da colônia. Machos e rainhas são produzidos na colônia em grande número, geralmente na primavera, quando saem dos ninhos e realizam o vôo nupcial. Logo após o acasalamento, o macho morre e a rainha inicia uma nova colônia ou retorna a uma já estabelecida. Ela elimina suas asas após o vôo, encontra um local para construir o ninho e colocar os ovos. Esta primeira cria é alimentada pela rainha e é formada exclusivamente por operárias, que são sempre estéreis. Depois que as operárias surgem, passam a realizar todo o trabalho da colônia: construção e defesa do ninho, cuidado com a prole, coleta de alimento, entre outros. A partir daí, a função da rainha passa a ser unicamente a postura de ovos.

 

Agravos para a saúde

Algumas formigas podem se defender através de um aparelho inoculador de veneno, podendo provocar reações alérgicas cuja gravidade depende da sensibilidade do indivíduo, local e número de ferroadas. As formigas-de-fogo tornam-se agressivas e atacam em grande número se o formigueiro for perturbado. A ferroada é extremamente dolorosa e uma formiga é capaz de ferroar 10-12 vezes, fixando suas mandíbulas na pele e ferroando repetidamente em torno desse eixo, o que leva a uma pequena lesão dupla no centro de várias lesões pustulosas. As espécies mais comuns são a Solenopsis invicta, a formiga lava-pés vermelha, originária das Regiões Centro-Oeste e Sudeste (particularmente o Pantanal Mato-Grossense) e a Solenopsis richteri, a formiga lava-pés preta, originária do Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai.

 

Curiosidades

● As formigas, tal como os tubarões, não sofreram grandes modificações na sua forma e tamanho ao longo dos últimos 60 milhões de anos. O mesmo tipo de formigas que existe atualmente no nosso planeta, habitava o mundo dos famosos dinossauros. Os paleontólogos têm descoberto mais fósseis de formigas que fósseis de qualquer outro inseto, parecendo indicar que as formigas têm sido uns colonizadores cheios de sucesso ao longo dos tempos. As formigas são realmente animais extraordinários, algumas delas conseguem carregar objetos que têm um peso dez vezes superior ao seu próprio peso, enquanto outras chegam a carregar com objetos cinqüenta vezes mais pesados. Muitas conseguem arrastar esses objetos por longas distâncias, subindo mesmo a árvores com eles. Se os seres humanos possuíssem tanta força, uma pessoa com 45 kg conseguiria carregar um pequeno automóvel durante aproximadamente 13 km, e depois subir a maior montanha do mundo ainda com o carro às costas.

● Os ninhos subterrâneos de algumas formigas tropicais podem ter uma profundidade de 12 m, albergando uma população de mais de 10 milhões de formigas. Algumas constroem ninhos constituídos por uma dúzia ou mais de montes de terra que poderão alcançar uma altura de 9 m, e que se encontram interligados, podendo um ninho deste tipo ocupar uma superfície equivalente a um campo de futebol.

● As formigas nunca dormem; pelo menos, nunca ninguém as viu fazerem isso. O que os biólogos descobriram é que as formigas sabem dividir o dia em horas de trabalho e de descanso. Alguns acham que elas não dormem porque têm uma vida curta e precisam trabalhar para manter o formigueiro. Algumas espécies, como as saúvas, vivem apenas três meses e começam a trabalhar assim que nascem.

● Elas também são surdas e se comunicam pelo cheiro. Quando uma formiga está em perigo, ela solta um odor chamado de feromônio para alertar as companheiras, transmitindo um aviso de que as demais devem fugir. O odor varia conforme a situação, mas o ser humano não consegue sentir esse cheiro. As formigas também servem de comida para o homem. Os chineses adoram ensopado de formigas, vinho com formigas, feijão com formigas etc. Eles dizem que, além de saborosas, são úteis no tratamento de muitas doenças. Se curam realmente ninguém sabe, mas os biólogos dizem que as rainhas-saúvas são muito nutritiva.

 formiga1

Anexo:

 

 

Figura 1. Formigas cortadeiras: folhas sendo incorporadas ao jardim de fungo.

 

MORFOLOGIA

 

Cérebro: Com cerca de 500.000 neurônios, divide-se em três partes (protocérebro, deutocérebro e tritocérebro).
Garras: Cada perna possui um par de garras (tarsais), que permitem o deslocamento desses insetos em superfícies lisas ou inclinadas.
Mandíbulas: Localizadas na parte anterior da cabeça, têm como funções serrar, cortar, furar, segurar e esmagar alimentos, além de servir para defesa.
Pernas: Como todos os insetos, possuem três pares de pernas. Cada uma é dividida em cinco segmentos. Também são usadas para limpeza do corpo.
Papo: Primeiro estômago armazena alimentos líquidos (ou a parte líquida da comida ingerida), regurgitados conforme a necessidade das larvas e da rainha.

Pedicelo ou cintura: Estreitamento entre o tórax e abdome. Diferencia as formigas dos outros insetos.
Exoesqueleto ou cutícula: Esqueleto externo e quitinoso que recobre o corpo e assegura a rigidez do adulto.

Glândula pos-faríngea: Só ocorre nas formigas. Produz e armazena lipídios (gorduras), secretam enzimas digestoras, produzem feromônios e misturam os componentes que originam o odor da colônia (o reconhecimento colonial).

Coração: Vaso dorsal que distribui a hemolinfa (“sangue” dos insetos) da região posterior para a anterior, irrigando o cérebro.

Glândula de veneno: Em muitas espécies produz o ácido fórmico (daí o nome de formiga), mas na maioria fabrica um veneno com alcalóides e peptídios, que quando injetado pode irritar o local ou causar graves reações alérgicas. Tem efeito paralisante nas presas.
Glândula de Dufour ou básica: Secreta feromônios que orientam as formigas. Uma vez depositados no ambiente por um indivíduo, informam as companheiras sobre pistas, como fontes de alimentos.

Glândula metapleural: Secreta substâncias anti-sépticas contra microorganismos.

Estômago verdadeiro: Digere e absorve os alimentos.

Sistema nervoso: É composto pelo cérebro e gânglio subesofágico na cabeça e por três gânglios torácicos e gânglios abdominais no cordão nervoso ventral.

Ferrão: Arma de defesa usada para injetar veneno. Apenas algumas espécies a possuem.
Olhos: Dependendo da espécie, algumas formigas podem enxergar até muitas centenas de metros, enquanto outras são quase cegas.

Íleo (intestino delgado): No íleo se abrem os túbulos de Malpighi (tubos verdes), que se ligam ao reto (bolsa rosa), formando o sistema de excreção.
Antenas: Formigas são os únicos insetos que possuem antenas em forma de cotovelo, com o primeiro segmento alongado e os restantes formando ângulo com o primeiro. Têm função sensitiva, por onde as formigas tateiam, sentem cheiros e se orientam.

Glândula mandibular: Produz feromônios de alarme, que sinalizam a presença de algum perigo, como um predador ou formigas de outras colônias.
Boca: Para comer, as formigas usam uma bomba de sucção na faringe. Entre ela e a boca, há a cavidade (ou filtro) infrabucal, pela qual não passa nada sólido.

Esporão: Presente no primeiro par de pernas, tem a função de limpeza das antenas. 

Texto usado nas aulas de Biologia, escrito pelo amigo do professor Junior,  mirmecólogo Wesley Dáttilo – Universidade Estadual do Norte Fluminense – Laboratório de Entomologia e Fitopatologia.

3 Comentários leave one →
  1. Wesley Dáttilo Link Permanente
    setembro 23, 2009 2:03 pm

    Olá Prof. Junior,

    Ficou muito bom o texto no blog…

    Parabéns..

    Abraços do seu amigo

    Wesley Dáttilo

  2. Eduardo Fox Link Permanente
    novembro 2, 2010 6:35 pm

    Muito bom o texto.

    Com relação às formigas lava-pés, é na verdade impossível no momento apontar de onde elas são originárias, e os resultados de análises moleculares recentes sugerem que as invasões dos EUA são oriundas da Argentina. E que talvez S. richteri e S. invicta sejam efetivamente a MESMA espécie…

    Parabéns!

  3. maio 5, 2012 12:01 am

    gostei do blog, vc é uma das poucas pessoas que faz um texto assim, com o conteudo bem abrangente…. parabéns!

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